A SERPENTE NO PARAÍSO DO CORAÇÃO

A Serpente no Paraíso
do Coração
(Tentação de Adão e Eva no Paraíso)

Qual a origem do pecado?

COMO INTERPRETAR A NARRATIVA BÍBLICA
SOBRE A SERPENTE NO PARAÍSO?

O capítulo terceiro do livro do Gênesis narra a história
do primeiro pecado: a tentação de comer o fruto proibido, a conversa de Eva com a serpente sedutora, o consentimento de Adão, a expulsão do paraíso.

Os santos Padres acreditam que a experiência de cada pessoa confirma e prolonga, na história, aquilo que o livro do
Génesis narra nos primeiros capítulos. Cada um de nós possui
um paraíso, isto é, o coração criado por Deus num estado pacífico. Da mesma forma, cada um de nós vive a experiência da
serpente a qual penetra em nosso coração para nos seduzir.
Orígenes (e com ele concordam muitos outros santos Padres) escreve: 'A fonte e o começo de todo pecado é o pensamento' (em grego, logismos).

Como é que um simples pensamento
PODE CAUSAR O MAL?

Não se trata de um simples pensamento, mas de um pensamento impuro, mau. Para sermos sinceros, aquilo que muitas
vezes chamamos de tentações não são nem mesmo verdadeiros
pensamentos, e sim, imagens da fantasia às quais acrescentamos a sugestão de estar realizando alguma má ação.

São Máximo, o Confessor, ilustra essa situação com exemplos da vida diária. Ele afirma, por exemplo, que a faculdade de
pensar não é um mal e nem mesmo é mal. A mulher não é um
mal, como também não é um mal pensar numa mulher. Entretanto, na mente de um homem inclinado à sensualidade, a imagem de uma mulher não permanece sempre pura, masse mistura com um impulso carnal, o qual sugere um ato contra a lei de
Deus. Do mesmo modo, o dinheiro e a bebida não são um mal
em si. Podem, entretanto, se tomar pedra de tropeço, por causa
dos impulsos impuros que a eles se acrescentam.

Dizemos que é "puro" aquilo ao qual nada se acrescenta:
assim, fala-se de ouro puro, água pura etc. Da mesma forma, os
pensamentos são puros até que não se lhes acrescentam impulsos que podem levar a fazer o mal.

DONDE PROVÊM TAIS IMPULSOS PARA O MAL?

Os santos Padres comparam o coração humano a uma "terra
prometida", na qual os filisteus, os babilônios e outros povos
pagãos atiram lanças e flechas, isto é, más sugestões. Tais pensamentos "diabólicos", "carnais", "impuros" não podem ter origem
em nosso coração, pois este foi criado por Deus. Então, vêm "de
fora". Não pertencem ao nosso modo natural de pensar.
 Enquanto permanecem "fora” de nós, não são pecado. Tomam-se um
mal somente a partir do momento em que os aceitamos consciente
e livremente, isto é, quando nos identificamos com eles.

TODAVIA, NO EVANGELHO ESTÁ ESCRITO
QUE O MAL PROVÉM DO CORAÇÃO E NÃO
DAS COISAS EXTERNAS (MT 15,19). 
E ENTÃO?

Com certeza. Mas devemos ficar atentos à maneira como
explicamos esse texto.

Do coração da pessoa provém o pecado, porque o consentimento ao mal se dá a partir de dentro dela, por sua livre
vontade.

Os pensamentos maus, os desejos passionais, por assim di-
zer, nos rodeiam continuamente. Muitas vezes ocupam a nossa
fantasia e a nossa mente. Constituem a fraqueza humana, após
o pecado dos nossos primeiros pais. Em si, porém, ainda não
são um verdadeiro mal. A Igreja afirma que a concupiscência
provém do pecado e conduz ao pecado; porém, em si, ela não é
pecado.

ENTÃO, VIVEMOS SEMPRE EXPOSTOS ÀS TENTAÇÕES...

A vida do ser humano na Terra é uma luta, afirma Jó (7,1).
E um provérbio acrescenta: "Quem não quer lutar, não deve nem
mesmo viver".
 Todavia, não se deve exagerar a dificuldade dessa
luta. O Pseudo-Macário, antigo escritor místico, compara a nos-
sa alma a uma grande cidade. No centro há um belo castelo,
perto dele fica a praça do mercado e, ao redor, a periferia.

O inimigo, isto é, o pecado original, ocupou a periferia, quer dizer, os nossos sentidos. Por isso, é neles que nos sentimos frequentemente perturbados. Tais perturbações, porém, chegam
muitas vezes até a praça do mercado, ou seja, aí onde se começa
a discutir se devemos acolher um pensamento ou rejeitá-lo.
Contudo, no castelo interior, onde a nossa liberdade é que manda, o pecado não pode penetrar, a não ser que lhe abramos a
porta, por meio do nosso livre consentimento.

Também santa Teresa ďÁvila fala do "castelo interior" da
nossa alma, onde podemos conversar com Deus, o Hóspede divino, sem que as perturbações periféricas, de alguma maneira,
nos impeçam de fazê-lo.

APESAR DISSO, ESTAMOS INTERNAMENTE DIVIDIDOS.
ISSO NÃO É AGRADÁVEL. E, TALVEZ, ATÉ MESMO
CANSATIVO...

As pessoas espirituais procuram não apenas evitar o peca-
do, mas também purificar o coração, porque, assim fazendo,
voltam a ter paz interior.

Para falar de ascese, os autores monásticos usam o termo
grego praxis, indicando, assim, a prática espiritual. Eles, porém,
fazem distinção entre 'prática exterior" - que consiste apenas
em evitar os atos pecaminosos - e 'prática interior' - que tem
como objetivo a purificação do coração.

Infelizmente, muitas vezes os ensinamentos morais que nos
são propostos limitam-se à prática exterior 'Não se deve fazer
isso; pode-se fazer aquilo'. 
E isso, talvez, possa explicar por que,
não raro, quando se sentem muito aflitas, as pessoas não sabem
mais o que fazer.
  E, como a aplicação de leis exteriores não as
ajuda, vão em busca de outras soluções, recorrendo aos mais
disparatados métodos propostos por falsos misticismos, bem
como aos médicos, às drogas etc.

Na maioria das vezes, tais pessoas se esquecem de que a
espiritualidade cristã oferece orientações eficacíssimas para se
obter a paz.

Onde podemos encontrá-las?

Os monges que optaram por uma vida de solidão eram pe-
ritos na busca da paz interior. Procuravam a tranquilidade, afas-
tando-se do mundo. Mas logo se davam conta de que a solidão
em si mesma não pacifica.

Santo Antão Abade, por exemplo, refugiou-se no deserto,
mas foi assaltado pelos "demônios", isto é, por uma quantidade
de pensamentos e de fantasias que o deixaram inquieto. Então,
teve de aprender a vencer tais 'demônios'.
 Somente após uma longa luta interior, conquistou a arte de vencê-los. 

A partir daí
sua solidão tomou-se um lugar de paz.
Tal experiência era tão comum, tão conhecida, que uma lei
estatal do império bizantino proibiu os monges de se refugiarem no deserto, na solidão, antes de ter vivido no mosteiro,
durante dez anos, a vida ascética.
Portanto, antes de enfrentar a
vida de eremita, os monges deviam aprender a dominar os próprios pensamentos e fantasias.

ESSAS EXPERIÊNCIAS DOS ANTIGOS MONGES AINDA SÃO
ACESSÍVEIS E ÚTEIS ÀS PESSOAS DE HOJE?

O interessante é que, em nossos dias, exatamente porque as
pessoas sentem particular necessidade dessas experiências e por
aumentarem os pedidos, se traduzem e publicam textos da antiga
espiritualidade que falam sobre o tema do combate interior.

 Para citar um exemplo conhecido, basta lembrar como, ultimamente,
se estão multiplicando as traduções da Filocalia, de Nicodemos
Agiorita. O texto é uma coletânea de numerosos trechos patrísticos
nos quais se ensina como chegar à pureza de coração, que é condição para a oração e para a tranquilidade de vida.
(A Tentação de Adão e Eva ou a Expulsão do Paraíso, Michelangelo, 1512, Capela Sistina, Roma Itália)

(Tirado do livro: "A arte de purificar o coraçāo)

Colaboração do Texto Irmã Natália Coppens.: https://www.facebook.com/nathalia.coppens.2025

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