QUEM É A PROSTITUTA DA BABILÔNIA DESCRITA NO LIVRO DO APOCALIPSE DE SÃO JOÃO?!
QUEM É A PROSTITUTA DA BABILÔNIA DESCRITA NO LIVRO DO APOCALIPSE DE SÃO JOÃO?!
Quem é a Prostituta da Babilônia?
Por séculos, apologistas protestantes apontaram para a "grande meretriz" de Apocalipse 17 e 18 como uma acusação velada contra a Igreja Católica Apostólica Romana. É uma leitura popular, repetida em púlpitos e panfletos mas que raramente resiste a um exame atento do próprio texto bíblico. Uma análise cuidadosa das Escrituras aponta em outra direção completamente diferente: a "grande meretriz" é a Jerusalém Apóstata
Antes de chegar aos capítulos 17 e 18, o livro do Apocalipse já entrega a pista decisiva. São João chama a Prostituta da Babilônia de "a grande cidade" que "espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado" (Ap 11,8).
Existe apenas uma cidade na face da Terra onde Jesus Cristo foi crucificado: Jerusalém. E São João a designa, textualmente, como "a grande cidade".
A expressão não aparece uma única vez e desaparece. Ela retorna, de forma deliberada, exatamente nos capítulos em que a grande meretriz é apresentada e depois destruída: Apocalipse 16,19; 17,18; 18,10; 18,16; 18,18; 18,21. O texto não formula a equação de modo explícito, mas a repetição insistente da mesma fórmula "a grande cidade" exige uma explicação. E a explicação mais natural é que se trata, em todos os casos, da mesma cidade.
A isso se soma outro detalhe: a meretriz é chamada de "Sodoma" (Ap 11,8), e o profeta Isaías já havia chamado Jerusalém de Sodoma séculos antes (Is 1,10). Ela está "embriagada com o sangue dos santos e dos profetas" (Ap 17,6) acusação que o próprio Cristo dirigiu, palavra por palavra, contra Jerusalém. E ela é consumida pelo fogo (Ap 18,8-9), assim como Jerusalém foi incendiada pelas legiões romanas no ano 70 d.C.
Há um argumento teológico que merece atenção especial. No vocabulário bíblico da aliança, uma cidade pagã não pode ser chamada de "prostituta" porque nunca foi esposa. A prostituição, nas Escrituras, é sempre a infidelidade de alguém que estava unido por aliança matrimonial.
Deus fez uma aliança nupcial com Jerusalém. Roma jamais foi Sua noiva. Assim, somente Jerusalém pode ocupar o papel da esposa infiel, precisamente porque somente Jerusalém foi, um dia, a esposa fiel.
Essa é a imagem que os profetas desenvolveram exaustivamente antes de São João. Ezequiel 16 e 23 descrevem, em termos explícitos, como a cidade "cheia de juízo", em que "habitava a justiça", tornou-se uma prostituta que se vendeu a todos os que passavam. Oséias e Jeremias 2 e 3 repetem a mesma acusação: Jerusalém como esposa que traiu o Esposo divino. É dessa biblioteca profética que o Apocalipse se alimenta.
O clímax dessa imagem aparece no próprio Evangelho, no julgamento de Cristo. Quando Pilatos ofereceu libertar Jesus, os líderes de Jerusalém responderam: "Não temos rei, senão César" (Jo 19,15). A esposa escolheu a besta em lugar do Esposo divino — a exata imagem retratada em Apocalipse 17.
O Apocalipse acusa a grande meretriz, duas vezes, de um crime específico: nela "se achou o sangue dos profetas, e dos santos, e de todos os que foram mortos sobre a terra" (Ap 18,24; cf. 17,6).
Compare-se essa fórmula com as palavras do próprio Cristo, dirigidas aos líderes de Jerusalém em Mateus 23: "para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel [...] Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas". A coincidência de linguagem "sangue... derramado sobre a terra" dificilmente é acidental. São João parece ecoar, conscientemente, a mesma acusação que Jesus formulou contra a cidade.
Santo Estêvão, em seu discurso final diante do Sinédrio, repete a acusação nos mesmos termos, chamando os líderes de Jerusalém de traidores e assassinos do Justo (At 7,51-52). E o próprio Cristo, chorando sobre a cidade, anuncia diretamente seu destino: cercada por inimigos, arrasada, "porque não reconheceste o tempo da tua visitação" (Lc 19,41-44).
Apocalipse 18 descreve a grande cidade sendo destruída pelo fogo, subitamente desolada, com fumaça subindo enquanto reis e mercadores observam de longe. No ano 70 d.C., as legiões romanas comandadas por Tito sitiaram Jerusalém e a incendiaram; o Templo foi consumido pelas chamas. Flávio Josefo registra a carnificina em termos que ressoam com o lamento de Apocalipse 18. O historiador cristão Eusébio de Cesareia relata que a comunidade cristã de Jerusalém, avisada, fugiu para Pela antes do cerco enquanto o julgamento recaía sobre a cidade que rejeitara o Messias.
Isso não significa que cada detalhe apocalíptico corresponda a um evento pontual de 70 d.C. a linguagem do Apocalipse é simbólica e estratificada. Mas dificilmente outra cidade na história se ajusta tão bem a essa descrição quanto a Jerusalém daquele ano.
É preciso honestidade aqui: a corrente majoritária da exegese patrística e católica tradicional de Santo Agostinho a Cornélio a Lápide identificou a Babilônia de Apocalipse 17-18 principalmente com a Roma pagã, perseguidora dos cristãos. Essa leitura é venerável e amplamente atestada.
Mas um ponto merece destaque: nenhum desses comentaristas identificou a Babilônia com a Igreja Católica. O debate histórico sempre foi entre Jerusalém e a Roma pagã jamais entre Jerusalém e a Igreja de Cristo. Essa possibilidade nunca esteve, de fato, em aberto na tradição.
A leitura preterista, que identifica a meretriz com Jerusalém apóstata, também tem raízes profundas e sérias no pensamento católico. O jesuíta espanhol Luís de Alcázar, em seu extenso comentário sobre o Apocalipse, argumentou que os capítulos 1 a 11 descrevem o julgamento de Deus sobre o judaísmo que rejeitou o Messias e a subsequente queda de Jerusalém uma tese elaborada explicitamente em defesa da Igreja contra leituras que a acusavam de ser a Babilônia profetizada. Se a meretriz já foi julgada em 70 d.C., ela simplesmente não pode ser Roma ou o papado.
Mais recentemente, o teólogo Scott Hahn, em suas conferências sobre o Apocalipse, defende explicitamente que a meretriz representa a Jerusalém apóstata que rejeitou o Messias, considerando as evidências textuais esmagadoras uma posição minoritária, mas séria e defensável dentro da ortodoxia católica.
São João Crisóstomo, em suas homilias, já havia aplicado linguagem semelhante "prostituta", "antro" à sinagoga de sua época, recorrendo ao mesmo texto de Jeremias que o Apocalipse utiliza. E Santo Tomás de Aquino estabeleceu o fundamento doutrinário mais amplo: as cerimônias da Antiga Lei, após a Paixão de Cristo, tornaram-se não apenas obsoletas, mas para quem insistisse nelas contra a nova Aliança um caminho de condenação.
Um detalhe iconográfico reforça essa leitura: a meretriz é vestida de púrpura, escarlate e ouro (Ap 17,4) exatamente as cores das vestes sacerdotais descritas em Êxodo 28. A meretriz veste as roupas do sacerdócio de Jerusalém: ela conserva as formas exteriores da Aliança, mas as prostituiu.
O Apocalipse é, no fundo, a história de duas mulheres: uma infiel, outra fiel. São Paulo já havia formulado essa estrutura em Gálatas 4: a Jerusalém terrena, "que está em cativeiro com seus filhos", e a Jerusalém celestial, "que é livre, a qual é nossa mãe". A primeira é a escrava expulsa da casa de Abraão; a segunda, a Igreja, é a mulher livre que herda a promessa.
Essa leitura chamada tradicionalmente de teologia da substituição ou do cumprimento da Aliança não propõe uma substituição arbitrária, mas o cumprimento de tudo aquilo para o qual a antiga Aliança apontava.
E é exatamente esse o desfecho do Apocalipse: depois que a meretriz é consumida pelo fogo, surge a noiva. "E eu, João, vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, ataviada como noiva enfeitada para o seu esposo" (Ap 21,2). De um lado, a cidade infiel que matou os profetas; do outro, o novo Israel que guardou a fé. Esse contraste percorre toda a Escritura, do Gênesis ao capítulo final do Apocalipse.
O cumprimento primário dessa profecia é histórico: a Jerusalém apóstata do primeiro século foi julgada em 70 d.C. Mas o Apocalipse permanece, também, um livro moral válido para todas as épocas. O espírito que ele denuncia reivindicar a aliança de Deus enquanto se rejeita o Messias de Deus não pertence a um único século.
A teologia católica tradicional sustenta que a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus, herdeira das promessas da Aliança. Mas sustenta também, com base em Romanos 11, que a esperança escatológica para o povo judeu não é de condenação, e sim de conversão a Cristo: "Israel foi endurecido em parte, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo" (Rm 11,25-26). É essa a oração católica tradicional não de hostilidade, mas de esperança: que os filhos dispersos de Abraão encontrem, um dia, seu lugar no Corpo de Cristo.
O Apocalipse não é, no fim, um livro de condenação, mas de triunfo. A meretriz a cidade que matou os profetas, rejeitou o Messias e perseguiu os apóstolos é consumida pelo julgamento. E do céu desce a noiva, vestida "de linho fino, resplandecente e puro", que são "as obras justas dos santos" (Ap 19,8).
A Santa Igreja Católica não é a Prostituta da Babilônia. Ela é a noiva: a nova Jerusalém, perseguida, imaculada e eternamente triunfante do Cordeiro.
Da próxima vez que alguém invocar Apocalipse 17 contra a Igreja, vale a pena devolver a pergunta com Apocalipse 11,8: qual é a grande cidade? Qual cidade matou os profetas? Qual cidade foi incendiada em 70 d.C., enquanto os cristãos já haviam fugido? E, por fim, quem é a noiva em Apocalipse 21, onde a própria Escritura já responde. Vale uma ressalva final: a Igreja nunca definiu dogmaticamente a identidade da Prostituta da Babilônia. Trata-se de uma questão de opinião teológica legítima, mas, entre as candidatas propostas ao longo dos séculos, uma se impõe com força particular quando se deixa o próprio Apocalipse falar por si: Jerusalém apóstata.
Imagem: A Prostituta da Babilônia sentada sobre a besta escarlate de sete cabeças e dez chifres. óleo sobre tela de Grazio Cossali século XVII .
Texto e Créditos na Imagem Via Página História Sacra.: https://www.facebook.com/profile.php?id=61554373001532
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