OS CISMAS ENTRE A FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X E ROMA:

João Paulo II excomungou Marcel Lefebvre em 1988. Bento XVI levantou a excomunhão em 2009, na esperança de uma reconciliação. Hoje, Leão XIV voltou a excomungar a Fraternidade, depois de esta insistir exatamente no mesmo comportamento que originou a rutura há quase quatro décadas.

Há quem passe a vida a dizer que defende a Tradição. Mas, pelos vistos, a única tradição que preservam com verdadeiro rigor é a de desobedecer ao Papa.

Dizem que lutam por Cristo. Curiosamente, acabam sempre a lutar pela própria relevância, pela própria estrutura e pela própria batina. Porque, quando chega o momento de escolher entre a comunhão da Igreja e o protagonismo da seita, a escolha parece ser sempre a mesma.

A relação entre Marcel Lefebvre e o Papa João Paulo II foi marcada por um profundo desacordo sobre o legado do Concílio Vaticano II, apesar das várias tentativas de diálogo e reconciliação.

É importante compreender que João Paulo II não era um observador distante do Concílio. Enquanto arcebispo de Cracóvia e, posteriormente, cardeal, participou ativamente nos trabalhos do Concílio Vaticano II, contribuindo em particular para a elaboração da constituição pastoral Gaudium et Spes. Defendia que o Concílio representava uma continuidade da Tradição da Igreja e que as suas reformas deveriam ser corretamente interpretadas e aplicadas.

Pelo contrário, Lefebvre tornou-se um dos principais críticos de algumas das decisões conciliares, considerando que determinados ensinamentos, nomeadamente sobre a liberdade religiosa, o ecumenismo, a colegialidade episcopal e a reforma litúrgica, representavam uma rutura com a tradição católica. Em 1970 fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, inicialmente com aprovação do bispo local, com o objetivo de formar sacerdotes segundo a liturgia tradicional. À medida que as divergências com Roma se agravaram, a situação tornou-se cada vez mais tensa.

Depois da eleição de João Paulo II, em 1978, o Papa procurou resolver o conflito através do diálogo. Recebeu Lefebvre em audiência e, ao longo da década de 1980, decorreram várias negociações, conduzidas sobretudo pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).

Esses esforços culminaram em 5 de maio de 1988, quando Lefebvre assinou um protocolo de acordo com a Santa Sé. O documento previa a regularização canónica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a preservação da liturgia tradicional e a nomeação de um bispo para assegurar a continuidade da obra fundada por Lefebvre.

No entanto, no dia seguinte, Lefebvre retirou a sua assinatura. Convencido de que Roma poderia adiar indefinidamente a nomeação do bispo prometido e receando que, devido à sua idade avançada (82 anos), a Fraternidade ficasse sem sucessão, decidiu avançar unilateralmente para a consagração de novos bispos.

Apesar dos apelos pessoais de João Paulo II para que não o fizesse, em 30 de junho de 1988 Lefebvre consagrou quatro bispos em Écône, na Suíça, sem mandato pontifício.

A Santa Sé declarou que esse ato constituía uma grave desobediência ao Papa e um ato cismático, afirmando que Lefebvre e os quatro bispos tinham incorrido em excomunhão automática.

Poucos dias depois, João Paulo II publicou o motu proprio Ecclesia Dei, no qual lamentou profundamente a ruptura, apelou aos fiéis ligados à Fraternidade para permanecerem em plena comunhão com Roma e reconheceu que muitos católicos tinham um legítimo apego à liturgia tradicional. Para responder a essa realidade, criou a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, destinada a facilitar a permanência desses fiéis na comunhão da Igreja, preservando a celebração da Missa segundo o rito anterior à reforma litúrgica.

Marcel Lefebvre morreu em 1991, sem que tivesse sido alcançada uma reconciliação. Em 2009, o Papa Bento XVI levantou a excomunhão dos quatro bispos consagrados em 1988 como gesto de aproximação, embora a Fraternidade Sacerdotal São Pio X continuasse, até hoje, numa situação canónica irregular.

Em síntese, a relação entre Lefebvre e João Paulo II passou por três fases distintas: um período de diálogo e tentativa de entendimento; um conflito crescente em torno da interpretação do Concílio Vaticano II e da autoridade do Papa; e, por fim, a ruptura de 1988, que permanece um dos episódios mais marcantes da história recente da Igreja Católica e continua a influenciar o debate entre tradição e reforma.

Fonte: Margarida Magalhães
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