A MORTE DO PAPA JOÃO PAULO I, EM 29/09/1978
A MORTE DO PAPA JOÃO PAULO I, EM 29-09-1978
Ela subia, batia com a porta, deixava o café e o Papa vinha buscá-lo antes das orações matinais. Era uma rotina simples, estranhamente doméstica, para o homem que governava uma igreja de 800 milhões de pessoas. Mas nessa manhã a porta não foi aberta. A Irmã Vincenza bateu de novo, chamou pelo nome, silêncio. Abriu a porta. O papa estava sentado na cama com papéis nas mãos, os óculos ainda na cara, a luz de leitura da cabeceira ainda acesa, como se tivesse morrido a ler, como se a morte tivesse chegado no meio de uma frase entre uma linha e outra de um
documento que estava a estudar durante a madrugada, nas horas em que o palácio apostólico estava em silêncio e o papa podia finalmente pensar sem interrupções. O cardeal Jean Vilot, secretário de Estado do Vaticano, foi avisado imediatamente. Era o número dois do poder eclesiástico, o homem que em teoria servia o Papa e na prática geria a máquina administrativa mais antiga do mundo ocidental.
Vilot chegou ao quarto. Ficou algum tempo e quando saiu, os papéis que estavam nas mãos do Papa tinham desaparecido. Desapareceram também os óculos, a chávena de café na mesa de cabeceira que o papa não tinha bebido, o que por si só era invulgar. Os medicamentos que João Paulo I tomava regularmente, uma agenda pessoal, papéis que estavam numa pasta ao lado da cama.
Tudo isso desapareceu do quarto antes que qualquer outra pessoa pudesse ver o que estava ali. Nessa mesma manhã, antes que qualquer médico independente pudesse examinar o corpo, o cardeal Villo ordenou o embalsamamento imediato de João Paulo I. O embalsamamento substitui os fluídos corporais por substâncias químicas que tornam impossível qualquer análise toxicológica posterior.
Torna impossível detetar venenos administrados nas horas antes da morte. Torna impossível, em suma, qualquer autópsia que pudesse estabelecer com certeza como o Papa havia morrido. Não houve autópsia. O Vaticano anunciou a morte às 6:40 da manhã. Causa declarada: Enfarte do miocárdio. Nenhum médico assinou o atestado de óbito naquele primeiro momento.
Texto Via Página Sentidos da Existência.:
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