REFLEXÕES: OS PORTÕES DO ARREPENDIMENTO
Os Portões Do Arrependimento
“Abra para mim, ó Doador da Vida, as portas do arrependimento...” canta a Igreja nas Matinas para o primeiro dos quatro domingos que nos preparam para a Quaresma. Na verdade, este domingo poderia ser pensado como uma porta, através da qual entramos no período sagrado que nos leva para a Páscoa; uma porta que se abre para a atmosfera de arrependimento, para o caminho que prepara a vida nova, que a Quaresma deve trazer para cada um de nós. Mas devemos lembrar que a palavra “penitência” ou “arrependimento” é uma tradução do termo grego "metanóia", e que significa "mudança de espírito". Metanóia significa muito mais estar envolvido [internamente] do que o cumprimento de algum tipo de arrependimento exterior. Uma mudança radical, renovação, conversão, é isto o que nos é pedido.
Este domingo, no calendário litúrgico, é chamado de "Domingo do Fariseu e Publicano". A Igreja, a fim de nos exortar ao verdadeiro arrependimento, coloca diante de nós a cena de dois homens que vão ao templo para orar, e dos quais um é justificado por conta de sua humildade e sua sincera contrição.
Podemos nos atrever a dizer que a parábola do fariseu e publicano (Lc 18: 10-14), que é lida na liturgia, é a mais perigosa de todas as parábolas. Porque estamos tão acostumados a condenar o farisaísmo que aqui parece que estamos a dizer: "Pelo menos, apesar de todo o meu pecado, não sou fariseu. Não sou um hipócrita”. Esquecemo-nos que a oração do fariseu não é totalmente má. O fariseu afirma que jejua, que dá o dízimo, que está livre dos pecados mais grosseiros. E isso tudo é verdade. Além disso, o fariseu não toma o crédito por suas boas ações, ele reconhece que elas vêm de Deus, e dá graças a Deus. No entanto, a oração do fariseu erra de duas maneiras: falta-lhe o arrependimento e humildade, pois não parece que ele tenha consciência... das deficiências - talvez desculpáveis - das quais ele, como todos os homens, é culpado. E, além disso, ele se compara ao publicano com um certo orgulho, um certo desdém. Será que temos o direito de condenar o fariseu, e nos considerarmos mais justos do que ele? Mas, antes de tudo, se nós quebramos os mandamentos que o fariseu observa, será que temos o direito de nos colocar no mesmo nível do publicano justificado, em contraste com o fariseu? Nós não podemos fazer isso, a menos que nossa atitude seja exatamente a mesma que a do publicano. Será que nos atrevemos a dizer que temos a humildade e o arrependimento do publicano? Se nós ostensivamente condenamos o fariseu, sem verdadeiramente assumirmos a humildade do publicano, então nós mesmos é que estaremos caindo no próprio farisaísmo.
Vamos agora olhar mais de perto o publicano. Ele não se atreve a levantar os olhos; ele fere seu peito; implora a Deus que tenha misericórdia dele, pois ele percebe que ele é um pecador. Toda a sua atitude corporal é de humildade. É por isso que o Salvador disse:
“Este homem desceu justificado para sua casa, em vez do outro”.
Notamos que Jesus diz: “em vez do outro”', deixando, de alguma forma, o caso do fariseu aberto ao nosso pensamento. E Jesus acrescenta:
"Todo aquele que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado".
Vamos tentar explorar este episódio mais profundamente. É o publicano justificado simplesmente porque ele humildemente confessa seu pecado diante de Deus? Não é só isso, nesse caso, há algo a mais. O núcleo da oração do publicano é um apelo, cheio de confiança, na bondade e na ternura de Deus. "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Estas primeiras palavras ecoam as do Salmo 51, que é essencialmente a abertura do salmo de penitência:
“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.” (Sl 51:1)
O fato de que Jesus escolhe para colocar estas palavras na boca do publicano e, assim, torná-las modelo de nossas orações de arrependimento, lança uma grande luz sobre a alma do Salvador, e sobre o que Ele pretende. O que Jesus pede de um pecador penitente (e, portanto, de cada um de nós), é acima de tudo este abandono, esta confiança absoluta na terna misericórdia e na graça de Deus.
Nas matinas, a Igreja resume a parábola evangélica e formula assim o pensamento central para este domingo:
"Senhor, que reprovaste o fariseu por justificar-se a si mesmo e por tomar-se de orgulho por suas ações, Tu que justificastes o publicano, quando ele se aproximou humildemente de Ti, buscando, com gemidos, o perdão por seus pecados. Pois Tu não te aproximarás dos pensamentos arrogantes, nem manterás longe de Ti um coração contrito. Por isso, nós também ajoelhamos humildemente diante de Ti, Tu que sofreste por nós, conceda-nos o Teu perdão e a Tua grande misericórdia".
A epístola para este domingo é tomada da segunda carta de São Paulo a seu discípulo Timóteo (II Tm 3: 10-15). O apóstolo, resumidamente, lembra a Timóteo de tudo o que ele, Paulo, teve que sofrer: perseguições e aflições de todos os tipos. Ele exorta Timóteo, que desde a infância foi criado acreditando em Cristo e nas Escrituras, a não desanimar, e a perseverar com caridade e paciência. Na véspera da Quaresma, esta epístola nos adverte que provas e dificuldades não vão faltar durante os santos preparativos para a Páscoa. Paulo tanto diz para nós quanto para Timóteo:
“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido” (II Tm 3:14).
Fonte: Boletim da Igreja Ortodoxa Polonesa.
Texto e Créditos na Imagem Via Página Santos Padres da Igreja.: https://www.facebook.com/marcosikitos
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Domingo do Publicano e do Fariseu
Três semanas antes do início da Grande Quaresma, a Igreja introduz os fiéis no tempo do Triódion, escola de arrependimento e de discernimento espiritual que prepara a alma para a peregrinação pascal. A pedagogia litúrgica deste período é de notável precisão pastoral: antes de insistir no jejum, nas obras ou nas práticas ascéticas, a Igreja corrige o fundamento interior sem o qual tudo o mais se torna estéril — a disposição do coração diante de Deus. Por isso, a porta do Triódion se abre com a parábola do Publicano e do Fariseu, colocada como exame inicial de consciência.
As leituras bíblicas deste domingo confirmam essa intenção espiritual. A Epístola (Rm 8,28–39) proclama a soberania do amor de Deus e a certeza de que nada pode separar o homem do amor de Cristo. O apóstolo Paulo não fala a partir da autossuficiência moral, mas da confiança absoluta na ação salvífica de Deus: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). Trata-se de uma esperança que exclui toda presunção, pois se funda não nos méritos humanos, mas naquele que “não poupou o seu próprio Filho” (Rm 8,32). Assim, a Epístola sustenta o coração do penitente e impede que a humildade se transforme em desespero.
O Evangelho (Lc 18,10–14) apresenta dois homens que sobem ao Templo para orar. Ambos são religiosos, ambos conhecem a Lei, ambos se dirigem a Deus. Contudo, apenas um retorna justificado. O fariseu, de pé, enumera suas observâncias e agradece por não ser como os outros. Sua oração, embora correta na forma, está corrompida no interior: ele fala de Deus, mas não fala com Deus. Como observa São João Crisóstomo, “o fariseu não pedia nada, porque julgava já possuir tudo; e, por isso mesmo, saiu vazio” (Homilia sobre a oração, PG 64).
O publicano, ao contrário, permanece à distância. Seus gestos corporais expressam a verdade interior: olhos baixos, o peito ferido, poucas palavras. Sua súplica — “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador” — tornou-se, na tradição da Igreja, o arquétipo da oração verdadeira. São João Crisóstomo observa que “Deus não exige palavras belas, mas um coração que não se exalta” (PG 59). O publicano não apresenta argumentos nem méritos; apresenta a si mesmo como ferido e necessitado de cura. E é precisamente essa verdade humilde que abre espaço para a graça.
A sentença final do Senhor orienta todo o Triódion: “Este voltou para casa justificado, e não o outro” (Lc 18,14). A tradição patrística insiste que aqui não se condenam o jejum, o dízimo ou a observância da Lei — todos são bons quando ordenados à conversão. O que é rejeitado é o coração que transforma a virtude em instrumento de julgamento. São Basílio o Grande ensina que “a obra boa, quando unida ao orgulho, deixa de ser virtude e torna-se acusação” (Homilia sobre a humildade, PG 31). Por isso, a Igreja começa a Quaresma não pedindo mais esforços, mas pedindo mais verdade.
Não é por acaso que, após este domingo, o jejum é suspenso durante a semana. A Igreja não enfraquece a ascese; ela a purifica. Antes de disciplinar o corpo, é necessário curar o coração. Sem humildade, o jejum degenera em vaidade; sem contrição, a oração transforma-se em discurso; sem misericórdia, a justiça converte-se em condenação.
Neste mesmo dia, o calendário litúrgico assinala a Pré-festa do Encontro do Senhor e a memória do Santo Mártir Trifon. Ambas as comemorações se harmonizam profundamente com a mensagem do domingo. Simeão reconhece o Messias não por superioridade moral, mas porque espera com humildade a consolação de Israel. E o mártir testemunha que a vitória cristã não nasce da autoconfiança, mas da fidelidade sustentada pela graça — da qual nada pode nos separar, como proclama o apóstolo.
Pastoralmente, este domingo estabelece o tom de todo o caminho quaresmal. A oração que justifica não é a mais longa nem a mais elaborada, mas a mais verdadeira. O publicano oferece ao Senhor aquilo que Deus nunca despreza: um coração contrito. Assim começa corretamente a Quaresma: não comparando-se aos outros, mas colocando-se diante de Deus com verdade.
Que o Senhor nos conceda, neste início do Triódion, a graça da humildade que salva, para que, sustentados pelo amor invencível anunciado por Paulo, caminhemos com esperança rumo à alegria pascal.
Fontes e referências bibliográficas:
São João Crisóstomo, Homilias sobre a oração e a humildade, PG 59; PG 64.
São Basílio o Grande, Homilias ascéticas (sobre a humildade e a contrição), PG 31.
Triódion, Domingo do Publicano e do Fariseu (estrutura pedagógica e hinos próprios).
Triódion. Texto grego e traduções litúrgicas ortodoxas.
GOMES, Folch. Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Paulinas, 1979.
QUASTEN, Johannes. Patrology, vol. III. Utrecht / Westminster.
BOUYER, Louis. La spiritualité du Nouveau Testament et des Pères. Paris: Cerf.
D. Irineo
Bispo de Tropaion)
Créditos na Imagem Via Página Santos Padres da Igreja.: https://www.facebook.com/marcosikitos
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