A MISSA DE HOJE É A MESMA DOS PRIMEIROS SÉCULOS!
(Quadro da Santa Ceia por Leonardo da Vinci 1498)
A descrição da Missa feita por São Justino, o Mártir, por volta do ano 155 d.C. em sua Primeira Apologia, é um dos documentos mais fascinantes da história do cristianismo. Ela prova que a estrutura fundamental da Eucaristia permanece praticamente a mesma há quase dois milênios.
São Justino escreveu esse relato para explicar ao imperador romano Antonino Pio o que os cristãos realmente faziam em suas reuniões, combatendo calúnias de que praticariam rituais imorais.
Aqui está a estrutura detalhada por ele:
1. Liturgia da Palavra:
A celebração começava com a reunião da comunidade no dia que Justino chama de "dia do Sol" (domingo).
Leituras: Liam-se as "Memórias dos Apóstolos" (os Evangelhos) ou os escritos dos Profetas, tanto quanto o tempo permitia.
Homilia: O "presidente" da assembleia fazia uma exortação oral, incentivando todos a imitarem os belos ensinamentos que tinham acabado de ouvir.
Orações Comuns: Todos se levantavam e dirigiam orações a Deus por si mesmos, pelos recém-batizados e por todas as pessoas do mundo.
2. Liturgia Eucarística:
Após as orações, iniciava-se o rito do sacrifício, com elementos que reconhecemos até hoje:
O Beijo da Paz: Os fiéis saudavam-se uns aos outros com um beijo, sinal de reconciliação e unidade.
Apresentação das Oferendas: Levava-se ao presidente pão, vinho e água.
A Grande Oração (Anáfora): O presidente tomava os dons e elevava louvores e glória ao Pai, pelo nome do Filho e do Espírito Santo. Ele proferia uma longa "Eucaristia" (ação de graças) por Deus tê-los feito dignos desses dons.
Amém: Ao final da oração, todo o povo presente aclamava dizendo "Amém", que significa "Assim seja".
3. A Comunhão e a Caridade:
Distribuição: Os diáconos distribuíam o pão e o vinho "eucaristizados" a todos os presentes.
Reserva Eucarística: O que sobrava era levado pelos diáconos aos que estavam ausentes (doentes ou presos).
Coleta para os Necessitados: Aqueles que tinham posses e queriam doar, entregavam suas contribuições ao presidente. Justino destaca que esse fundo servia para ajudar órfãos, viúvas, doentes e estrangeiros.
A Teologia da "Transubstanciação" em Justino
É importante notar que Justino já defendia a Presença Real de Cristo. Ele escreve explicitamente:
"Pois não tomamos estas coisas como pão comum ou bebida comum... aprendemos que aquele alimento sobre o qual se disse a ação de graças... é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou."
(A Missa Tridentina de 1570, Antes do Concílio Vaticano II)
Para aprofundarmos no contexto de São Justino, é preciso entender que ele não era um bispo ou padre de carreira desde a juventude, mas sim um filósofo. Ele usava a "palium" (a capa dos filósofos gregos) mesmo depois de se converter ao cristianismo.
Aqui estão os pontos fundamentais sobre o contexto histórico e a teologia por trás da Missa que ele descreveu:
1. O Contexto Histórico: Uma Igreja "Ilegal"
No ano 155 d.C., o cristianismo era uma religião ilícita no Império Romano. Os cristãos eram alvos de três acusações principais que Justino tentava derrubar:
Ateísmo: Porque não adoravam os deuses romanos nem tinham estátuas.
Canibalismo: Boatos surgiam porque os pagãos ouviam que os cristãos "comiam o corpo e bebiam o sangue" de alguém.
Imoralidade: As reuniões eram fechadas e chamadas de "Ágape" (banquete do amor), o que gerava fofocas sobre orgias.
Ao descrever a Missa detalhadamente ao imperador, Justino estava fazendo uma defesa política: ele queria mostrar que o culto cristão era, na verdade, racional, moral e focado na caridade.
2. A Teologia do "Logos" (A Razão)
Justino é o pai da teologia do Logos Spermatikos (Sementes do Verbo).
A Ponte com a Filosofia: Ele acreditava que toda a verdade dita pelos filósofos gregos (como Platão e Sócrates) vinha de Cristo, o "Logos" (Palavra/Razão).
Culto Racional: Para ele, a Missa não era um ritual mágico irracional, mas o "culto lógico" onde a Palavra de Deus se tornava presente. Por isso, a leitura das Escrituras e a pregação eram tão centrais.
3. Por que o Domingo? Inculturação Litúrgica da Fé.
Justino explica ao imperador o porquê da escolha do dia, unindo simbolismo bíblico e astronômico:
Criação: Foi o primeiro dia em que Deus transformou as trevas e a matéria para criar o mundo.
Ressurreição: Foi o dia em que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos.
Contraste Pagão: Ao chamar de "Dia do Sol", ele facilitava a compreensão dos romanos, mas subvertia o significado: o verdadeiro Sol é Cristo.
4. O Mistério da "Eucaristização"
Um ponto teológico crucial no texto de Justino é como o pão se torna o Corpo de Cristo. Ele usa o termo grego Eucharistia.
Pela Oração: Ele explica que a mudança não ocorre por um poder humano, mas pela "oração da palavra que dele (Cristo) procede".
Encarnação Contínua: Para Justino, assim como o Logos se fez carne em Maria, o Logos se faz "carne e sangue" no pão e no vinho para nutrir a Igreja. Isso combatia a ideia de que a Eucaristia era apenas um símbolo ou uma lembrança vaga.
5. A Dimensão Social (Justiça)
Diferente dos sacrifícios romanos, onde os animais eram queimados para os deuses, o "sacrifício" cristão descrito por Justino terminava em assistência social.
O fato de os diáconos levarem a comunhão aos doentes e de haver uma coleta obrigatória para órfãos e viúvas mostra que, para a Igreja primitiva, a Eucaristia e a Caridade eram inseparáveis. Não se podia comungar o Corpo de Cristo no altar e ignorar o Corpo de Cristo nos pobres.
Curiosidade: O Martírio de Justino
Anos depois de escrever essa apologia, Justino foi levado a julgamento. O prefeito rústico perguntou-lhe: "Onde os cristãos se reúnem?". Justino respondeu que Deus não está confinado a um lugar. Quando instado a sacrificar aos deuses, ele disse: "Ninguém de bom senso passa da piedade para a impiedade". Ele foi decapitado em 165 d.C., selando com sangue o que escreveu com a pena.
Aqui está a tradução de um dos trechos mais famosos e importantes da Primeira Apologia de São Justino (Capítulos 65-67). Este texto é considerado "o tesouro da liturgia", pois é o registro mais antigo e detalhado de como os cristãos celebravam a Eucaristia logo após a era dos Apóstolos.
O Texto Original: A Celebração do Domingo:
"No dia que se chama do Sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, tanto quanto o tempo permite.
Quando o leitor termina, o presidente faz uma alocução, exortando-nos à imitação de tão belos ensinamentos. Depois, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas orações."
Sobre a Eucaristia (A Presença Real)
Nesta parte, Justino deixa claro que os cristãos não viam o pão como algo comum:
"Terminadas as orações, damos o ósculo da paz. Em seguida, leva-se ao presidente dos irmãos pão e um cálice de vinho misturado com água. O presidente os recebe e eleva louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo...
Este alimento chama-se entre nós Eucaristia. [...] Pois não os recebemos como pão comum ou bebida comum; mas da mesma forma que Jesus Cristo, nosso Salvador, se fez carne pela Palavra de Deus... assim também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças... é a própria carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou."
Observações Importantes do Texto:
1. O Vinho com Água
Justino menciona o "vinho misturado com água". Na época, era um costume cultural suavizar o vinho, mas a Igreja deu a isso um sentido teológico: a união da humanidade (água) com a divindade de Cristo (vinho).
2. O Papel do "Presidente"
Note que ele usa o termo "Presidente" (Proestós em grego). Ele faz isso porque está escrevendo para um imperador pagão e quer usar termos que soem como uma organização respeitável, embora na prática estivesse se referindo ao Bispo ou Presbítero.
3. As "Memórias dos Apóstolos"
Este é um detalhe histórico valioso. No ano 155, o Novo Testamento ainda estava sendo "formado". Quando Justino diz que se liam as "memórias", ele confirma que os Evangelhos já eram lidos com o mesmo status de autoridade que os Profetas do Antigo Testamento.
O que aconteceu com São Justino?
Como mencionei, Justino levou sua filosofia até as últimas consequências. No seu julgamento, o diálogo final com o prefeito romano Rústico foi registrado:
Rústico: "Tu és cristão?"
Justino: "Sim, sou cristão."
Rústico: "Se fores açoitado e decapitado, acreditas que subirás ao céu?"
Justino: "Não é que eu acredite, eu tenho certeza absoluta."
Ele foi executado logo em seguida, demonstrando que, para ele, a Missa que descreveu não era apenas um rito, mas a fonte de sua força para morrer.
Para entender a evolução da Missa, é fascinante comparar São Justino (que vivia em Roma, ano 155) com Santo Inácio de Antioquia (que escreveu por volta do ano 107-110).
Enquanto Justino detalha a ordem do rito, Inácio foca na autoridade e unidade em torno da Eucaristia. Juntos, eles formam a base do que hoje chamamos de Igreja Católica e Ortodoxa.
A Evolução da Estrutura:
Santo Inácio reforça que a Eucaristia é o que mantém os cristãos unidos contra as heresias. Ele dizia que os hereges "não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo". Já Justino, algumas décadas depois, mostra que essa crença já estava organizada em uma liturgia fixa.
Por que essas fontes são cruciais hoje?
A Sucessão Apostólica: Eles provam que, desde o início, a Igreja não era um grupo desorganizado, mas tinha líderes claros (bispos e diáconos).
O Realismo Sacramental: Ambos tratam o pão e o vinho como o corpo e sangue de Cristo de forma literal, não apenas simbólica.
A Centralidade do Domingo: Confirmam que o sábado foi substituído pelo domingo logo na primeira geração de cristãos.
O Caminho do Martírio:
O que une esses dois homens, além da teologia, é o fim de suas vidas.
Inácio foi devorado por leões em Roma, desejando ser "trigo de Deus, moído pelos dentes das feras para se tornar pão puro de Cristo".
Justino foi decapitado em Roma, defendendo que a "filosofia cristã" era a única verdade plena.
Curiosamente, a Igreja mantém os nomes de ambos (e de outros mártires dessa época) no Cânon Romano (Oração Eucarística I), que é rezado até hoje nas missas.
É impressionante como a linguagem utilizada por esses primeiros cristãos não apenas sobreviveu, mas continua sendo a "espinha dorsal" da liturgia atual. Quando você vai a uma Missa hoje, está ouvindo ecos diretos do que Justino e Inácio escreveram há quase 1.900 anos.
Aqui estão os pontos exatos onde a influência deles aparece:
1. O Diálogo Inicial da Oração Eucarística
Justino menciona que o presidente "eleva louvor e glória ao Pai". Na Missa atual, o diálogo:
Sacerdote: "Corações ao alto."
Assembleia: "O nosso coração está em Deus."
Sacerdote: "Demos graças ao Senhor, nosso Deus."
Assembleia: "É nosso dever e nossa salvação."
Este trecho é o cumprimento exato da "Eucaristia" (Ação de Graças) que Justino descreveu como o momento em que o presidente louva a Deus por ter feito o povo digno daqueles dons.
2. O Amém da Assembleia
Justino deu uma importância enorme ao "Amém" do povo. Ele explicava aos pagãos que o povo confirmava toda a oração do presidente com essa aclamação.
Hoje: O momento mais solene da Missa (a Doxologia Final: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo...") termina com o Grande Amém, que é a ratificação de tudo o que foi realizado no altar.
3. A Mistura do Vinho com a Água
Justino mencionou o "cálice de vinho misturado com água".
Hoje: O padre ou diácono coloca uma gota de água no vinho e reza silenciosamente: "Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade de Aquele que se dignou assumir a nossa humanidade". É a teologia da Encarnação que Justino tanto defendia.
4. O Cânon Romano (Oração Eucarística I)
Esta oração é a mais antiga em uso na Igreja Romana. Ela cita nominalmente os sucessores dos apóstolos e os mártires daquela época. Embora o nome de Justino e Inácio não apareçam em todas as orações eucarísticas, a Estrutura de Invocação (Epiclese) que eles defendiam — de que o Espírito Santo ou o Logos santifica o pão — permanece central.
5. A Oração pelos Fiéis
Justino relata que, após as leituras, eles se levantavam e faziam orações por todos os homens.
Hoje: Após a homilia, temos a Oração da Assembleia (ou Preces), onde pedimos pela Igreja, pelos governantes (exatamente como Justino fazia pelo Imperador) e pelos necessitados.
6. O "Remédio da Imortalidade"
A frase de Santo Inácio de Antioquia, chamando a Eucaristia de "Pharmakon athanasias" (Remédio da imortalidade), é citada até hoje no Catecismo da Igreja Católica (§1331) e frequentemente usada em homilias para explicar que a comunhão não é um prêmio para os perfeitos, mas um auxílio para a nossa fraqueza.
Por que isso é importante?
Para um historiador ou um fiel, isso demonstra a continuidade. Muitas pessoas acreditam que a Missa foi uma "invenção" medieval, mas os escritos de Justino e Inácio provam que o núcleo — Palavra, Eucaristia, Presença Real e Caridade — já estava lá desde o início, nas casas-igrejas do século II.
A transição da Igreja das catacumbas para as grandes basílicas, após o Édito de Milão (313 d.C.) e o reinado de Constantino, mudou profundamente a "roupagem" da Missa, embora o "esqueleto" descrito por São Justino tenha permanecido intacto.
Aqui estão as principais mudanças que ocorreram quando o cristianismo deixou de ser perseguido:
1. Do Espaço Doméstico para a Basílica
Antes de Constantino, os cristãos se reuniam em Domus Ecclesiae (Casas-Igreja). Eram ambientes íntimos e simples.
Após Constantino: O imperador doou palácios e construiu basílicas (como a de São João de Latrão).
Consequência: A liturgia tornou-se pública e solene. O "Presidente" de Justino agora sentava-se em uma cátedra (trono) e o altar, antes uma mesa de madeira, passou a ser de mármore e adornado.
2. A Entrada da Pompa Imperial
Muitos elementos que associamos hoje à liturgia solene vieram do protocolo da corte romana:
Incenso e Velas: Na corte, eram usados para honrar o imperador quando ele entrava. A Igreja adotou isso para honrar o Evangelho e o Altar (o "Trono de Cristo").
Vestimentas: Os ministros começaram a usar vestes distintas (a origem das casulas e alvas), baseadas na moda da aristocracia romana da época.
3. O Desenvolvimento do Calendário e dos Ritos
Com a paz, a Igreja pôde "expandir" o tempo litúrgico.
As Festas: Surgiram ciclos mais definidos para o Natal e a Páscoa.
Cânticos: O que era uma recitação simples começou a se transformar em cantos corais mais complexos.
Idiomas: No Ocidente, a Missa passou gradualmente do grego (língua de Justino) para o latim, que era a língua oficial do povo e da administração romana.
4. A Teologia se torna Defensiva
Se no tempo de Justino o foco era explicar a Missa para quem estava fora (pagãos), no século IV o foco mudou para combater heresias internas (como o Arianismo).
O Credo: Foi nesta época (Concílios de Niceia e Constantinopla) que o Credo foi formalizado e introduzido na Missa, para que todos professassem a mesma fé correta antes da Eucaristia.
O que permaneceu igual?
Apesar de todo o ouro, mármore e incenso das basílicas imperiais, o roteiro era rigorosamente o de São Justino:
Leituras (Liturgia da Palavra)
Homilia
Ofertório (Pão e Vinho)
Oração Eucarística (Consagração)
Amém e Comunhão
Uma Curiosidade: O "Segredo" que acabou
No tempo de Justino, havia a "Disciplina do Arcano": os não batizados eram expulsos após a homilia e não podiam ver a consagração (para evitar profanações). Com a oficialização, essa prática de "segredo" foi desaparecendo aos poucos, e a Missa tornou-se o evento público mais importante da sociedade.
Essa é uma das partes mais interessantes da história da Igreja, pois houve um paradoxo: a Missa ficou mais grandiosa, mas o povo acabou ficando mais distante.
Essa mudança de participação pode ser resumida em três pontos principais:
1. Do "Banquete" para o "Espetáculo Sagrado"
Na época de São Justino, a Missa acontecia em uma sala (cenáculo). Todos viam tudo e o presidente estava muito próximo da comunidade.
Após Constantino: Com as enormes basílicas, a distância física aumentou. O altar foi colocado na abside (o fundo semicircular da igreja) e, muitas vezes, separado do povo por uma grade ou cortina chamada iconostase (no Oriente) ou cancelli (no Ocidente).
O Efeito: O fiel deixou de se sentir um "participante direto" para se tornar um "espectador" de um mistério sagrado e terrível.
2. A Mudança na Comunhão
Curiosamente, quanto mais a Igreja crescia e ficava poderosa, menos as pessoas comungavam.
Século II (Justino): Todos os presentes comungavam. Era a marca da identidade cristã.
Século IV em diante: Surgiu um senso de "indignidade". As pessoas começaram a ter tanto medo da santidade da Eucaristia que passavam anos sem comungar, apenas assistindo ao rito.
O gesto: Antes, recebia-se o pão na mão (como Justino descreve). Com o tempo, para evitar qualquer desrespeito ou queda de fragmentos, passou-se a distribuir a comunhão diretamente na boca e, eventualmente, de joelhos.
3. O Surgimento do "Clericalismo" Litúrgico
Com a oficialização, os bispos e padres ganharam status de magistrados romanos.
Linguagem: Enquanto o latim era a língua do povo no século IV, com o passar dos séculos, o povo passou a falar línguas românicas (português, francês, etc.), mas a Missa continuou em latim.
O Silêncio: A Oração Eucarística, que Justino descrevia como uma ação de graças ouvida por todos, passou a ser rezada em voz baixa (secreta) pelo padre. O povo já não respondia o "Amém" com a mesma força, pois muitas vezes não entendia o que estava sendo dito.
O Legado dessa Mudança
Muitas das reformas litúrgicas do século XX (Concílio Vaticano II) tentaram justamente voltar ao modelo de São Justino: trazer o altar para perto do povo, usar a língua local e incentivar que todos participem ativamente das respostas e da comunhão.
O Concílio Vaticano II (1962-1965) promoveu uma reforma litúrgica que foi, essencialmente, um mergulho nas fontes da Igreja Primitiva. Os teólogos e bispos da época utilizaram o relato de São Justino como o "padrão ouro" para simplificar a Missa e devolver a ela o sentido de assembleia.
Aqui estão os resgates mais importantes:
1. O Altar e a Proximidade
O que mudou: Antes do Concílio, o padre celebrava de costas para o povo (ad orientem), em altares encostados na parede, herança das grandes basílicas.
O resgate de Justino: O altar voltou a ser uma mesa central (frequentemente de madeira ou pedra simples), com o padre voltado para a assembleia (versus populum), recriando a atmosfera de "reunião de irmãos" que Justino descreveu.
2. A Liturgia da Palavra e a Língua Vernácula
O que mudou: A Missa deixou de ser celebrada exclusivamente em latim.
O resgate de Justino: Justino dizia que as leituras eram feitas "tanto quanto o tempo permitia" para que todos entendessem. Ao adotar a língua local (português, por exemplo), o Vaticano II permitiu que a Palavra de Deus voltasse a ser alimento direto para o povo, e não apenas um rito misterioso em uma língua morta.
3. A Oração dos Fiéis (Preces)
Esta parte da Missa havia praticamente desaparecido da celebração comum, ficando restrita apenas à Sexta-Feira Santa.
O resgate de Justino: O Concílio restaurou a "Oração Universal" logo após a homilia. É exatamente o que Justino descrevia: "levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas orações por nós mesmos e por todos os outros em todo o lugar".
4. O Ofertório e a Procissão dos Dons
O que mudou: O ofertório tornou-se mais visível. Em muitas paróquias, membros da assembleia levam o pão e o vinho até o altar.
O resgate de Justino: Isso reflete o texto de 155 d.C.: "leva-se ao presidente dos irmãos pão e um cálice de vinho". Além disso, a coleta de dinheiro para os pobres foi mantida como um gesto de caridade ligado ao sacrifício, conforme Justino enfatizava.
5. A Participação Ativa (O Amém)
O Concílio insistiu que os fiéis não deveriam estar na Missa como "espectadores mudos".
O resgate de Justino: Pediu-se que as aclamações (Santo, Amém, Cordeiro de Deus) fossem cantadas ou ditas por todos, devolvendo ao povo o papel de ratificar a oração do presidente, como o "Grande Amém" que Justino tanto destacava.
Comparativo Final: A "Volta às Origens"
Essa "revolução" litúrgica foi, na verdade, uma restauração. O objetivo era que o cristão do século XX pudesse reconhecer na sua paróquia a mesma essência daquela pequena comunidade que se reunia em Roma no século II.
Embora tanto o Ocidente (Igreja Católica Romana) quanto o Oriente (Igrejas Ortodoxas e Católicas de Rito Oriental) tenham como base o relato de São Justino, eles desenvolveram estilos muito diferentes de expressar a mesma fé.
A principal diferença é que, enquanto o Ocidente (especialmente após o Vaticano II) buscou a nobre simplicidade, o Oriente preservou e expandiu a pompa e o mistério do período bizantino.
1. O Espaço Sagrado: Visibilidade vs. Mistério
Ocidente: O altar é visível e próximo. O objetivo é que o fiel veja e ouça claramente o que o padre está fazendo (como nas casas-igrejas de Justino).
Oriente: Existe o Iconostásio, uma parede coberta de ícones que separa o altar (o "Santo dos Santos") da assembleia. Grande parte da Oração Eucarística é feita de forma secreta pelo padre atrás das portas fechadas.
2. O Pão e o Vinho
Ocidente: Usa-se pão ázimo (sem fermento), seguindo a tradição da Páscoa judaica, e geralmente em formato de pequenas hóstias.
Oriente: Usa-se pão fermentado (Prosphora). O fermento simboliza a Ressurreição e a vida de Cristo. O pão é cortado em cubos e colocado dentro do cálice com o vinho; a comunhão é dada com uma colher.
3. A Mistura com Água (O Rito do Calor)
Justino mencionou a mistura de vinho e água.
Ocidente: Ocorre no Ofertório, com uma gota de água fria.
Oriente: No rito bizantino, além da água no ofertório, adiciona-se água fervendo (Zeon) ao cálice pouco antes da comunhão, para simbolizar que o Sangue de Cristo é "fervente" e vivo.
4. O Papel do Corpo e dos Sentidos
Ocidente: A liturgia é mais cerebral e linear. O povo responde, senta, levanta e ouve.
Oriente: A liturgia é uma experiência sensorial total. O uso de incenso é constante, as orações são quase todas cantadas e os fiéis fazem frequentes metanias (inclinações) e o sinal da cruz.
O que os une? (O "DNA" de Justino)
Apesar das diferenças visuais, se São Justino pudesse visitar as duas celebrações hoje, ele reconheceria em ambas:
A Liturgia do Logos: As leituras bíblicas no início.
A Anáfora: A grande oração de ação de graças que transforma os dons.
A Eucaristia como Alimento: A distribuição real da comunhão como centro da reunião.
Qual dessas tradições você acha que mais se aproxima da "sensação" de uma reunião primitiva?
Alguns argumentam que a simplicidade da Missa moderna lembra a casa de Justino, enquanto outros dizem que o fervor e o misticismo do Oriente preservam melhor o "temor e tremor" que os mártires sentiam diante do mistério.
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