A MISSA DE HOJE É A MESMA DOS PRIMEIROS SÉCULOS!

(Quadro da Santa Ceia por Leonardo da Vinci 1498)

A Missa de hoje é a mesma da dos primeiros séculos da Igreja, nada mudou, a estrutura é essencialmente a mesma.
A descrição da Missa feita por São Justino, o Mártir, por volta do ano 155 d.C. em sua Primeira Apologia, é um dos documentos mais fascinantes da história do cristianismo. Ela prova que a estrutura fundamental da Eucaristia permanece praticamente a mesma há quase dois milênios.
​São Justino escreveu esse relato para explicar ao imperador romano Antonino Pio o que os cristãos realmente faziam em suas reuniões, combatendo calúnias de que praticariam rituais imorais.
​Aqui está a estrutura detalhada por ele:

​1. Liturgia da Palavra:
​A celebração começava com a reunião da comunidade no dia que Justino chama de "dia do Sol" (domingo).
​Leituras: Liam-se as "Memórias dos Apóstolos" (os Evangelhos) ou os escritos dos Profetas, tanto quanto o tempo permitia.
​Homilia: O "presidente" da assembleia fazia uma exortação oral, incentivando todos a imitarem os belos ensinamentos que tinham acabado de ouvir.
​Orações Comuns: Todos se levantavam e dirigiam orações a Deus por si mesmos, pelos recém-batizados e por todas as pessoas do mundo.

​2. Liturgia Eucarística:
​Após as orações, iniciava-se o rito do sacrifício, com elementos que reconhecemos até hoje:
​O Beijo da Paz: Os fiéis saudavam-se uns aos outros com um beijo, sinal de reconciliação e unidade.
​Apresentação das Oferendas: Levava-se ao presidente pão, vinho e água.
​A Grande Oração (Anáfora): O presidente tomava os dons e elevava louvores e glória ao Pai, pelo nome do Filho e do Espírito Santo. Ele proferia uma longa "Eucaristia" (ação de graças) por Deus tê-los feito dignos desses dons.
​Amém: Ao final da oração, todo o povo presente aclamava dizendo "Amém", que significa "Assim seja".

​3. A Comunhão e a Caridade:
​Distribuição: Os diáconos distribuíam o pão e o vinho "eucaristizados" a todos os presentes.
​Reserva Eucarística: O que sobrava era levado pelos diáconos aos que estavam ausentes (doentes ou presos).
​Coleta para os Necessitados: Aqueles que tinham posses e queriam doar, entregavam suas contribuições ao presidente. Justino destaca que esse fundo servia para ajudar órfãos, viúvas, doentes e estrangeiros.
​A Teologia da "Transubstanciação" em Justino
​É importante notar que Justino já defendia a Presença Real de Cristo. Ele escreve explicitamente:
​"Pois não tomamos estas coisas como pão comum ou bebida comum... aprendemos que aquele alimento sobre o qual se disse a ação de graças... é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou."
(A Missa Tridentina de 1570, Antes do Concílio Vaticano II)

Para aprofundarmos no contexto de São Justino, é preciso entender que ele não era um bispo ou padre de carreira desde a juventude, mas sim um filósofo. Ele usava a "palium" (a capa dos filósofos gregos) mesmo depois de se converter ao cristianismo.
​Aqui estão os pontos fundamentais sobre o contexto histórico e a teologia por trás da Missa que ele descreveu:

​1. O Contexto Histórico: Uma Igreja "Ilegal"
​No ano 155 d.C., o cristianismo era uma religião ilícita no Império Romano. Os cristãos eram alvos de três acusações principais que Justino tentava derrubar:
​Ateísmo: Porque não adoravam os deuses romanos nem tinham estátuas.
​Canibalismo: Boatos surgiam porque os pagãos ouviam que os cristãos "comiam o corpo e bebiam o sangue" de alguém.
​Imoralidade: As reuniões eram fechadas e chamadas de "Ágape" (banquete do amor), o que gerava fofocas sobre orgias.
​Ao descrever a Missa detalhadamente ao imperador, Justino estava fazendo uma defesa política: ele queria mostrar que o culto cristão era, na verdade, racional, moral e focado na caridade.

2. A Teologia do "Logos" (A Razão)
​Justino é o pai da teologia do Logos Spermatikos (Sementes do Verbo).
​A Ponte com a Filosofia: Ele acreditava que toda a verdade dita pelos filósofos gregos (como Platão e Sócrates) vinha de Cristo, o "Logos" (Palavra/Razão).
​Culto Racional: Para ele, a Missa não era um ritual mágico irracional, mas o "culto lógico" onde a Palavra de Deus se tornava presente. Por isso, a leitura das Escrituras e a pregação eram tão centrais.

​3. Por que o Domingo? Inculturação Litúrgica da Fé.
​Justino explica ao imperador o porquê da escolha do dia, unindo simbolismo bíblico e astronômico:
​Criação: Foi o primeiro dia em que Deus transformou as trevas e a matéria para criar o mundo.
​Ressurreição: Foi o dia em que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos.
​Contraste Pagão: Ao chamar de "Dia do Sol", ele facilitava a compreensão dos romanos, mas subvertia o significado: o verdadeiro Sol é Cristo.

​4. O Mistério da "Eucaristização"
​Um ponto teológico crucial no texto de Justino é como o pão se torna o Corpo de Cristo. Ele usa o termo grego Eucharistia.
​Pela Oração: Ele explica que a mudança não ocorre por um poder humano, mas pela "oração da palavra que dele (Cristo) procede".
​Encarnação Contínua: Para Justino, assim como o Logos se fez carne em Maria, o Logos se faz "carne e sangue" no pão e no vinho para nutrir a Igreja. Isso combatia a ideia de que a Eucaristia era apenas um símbolo ou uma lembrança vaga.

​5. A Dimensão Social (Justiça)
​Diferente dos sacrifícios romanos, onde os animais eram queimados para os deuses, o "sacrifício" cristão descrito por Justino terminava em assistência social.
​O fato de os diáconos levarem a comunhão aos doentes e de haver uma coleta obrigatória para órfãos e viúvas mostra que, para a Igreja primitiva, a Eucaristia e a Caridade eram inseparáveis. Não se podia comungar o Corpo de Cristo no altar e ignorar o Corpo de Cristo nos pobres.
(A Santa Missa depois do Concílio Vaticano II 1962-1965)

​Curiosidade: O Martírio de Justino
​Anos depois de escrever essa apologia, Justino foi levado a julgamento. O prefeito rústico perguntou-lhe: "Onde os cristãos se reúnem?". Justino respondeu que Deus não está confinado a um lugar. Quando instado a sacrificar aos deuses, ele disse: "Ninguém de bom senso passa da piedade para a impiedade". Ele foi decapitado em 165 d.C., selando com sangue o que escreveu com a pena.

Aqui está a tradução de um dos trechos mais famosos e importantes da Primeira Apologia de São Justino (Capítulos 65-67). Este texto é considerado "o tesouro da liturgia", pois é o registro mais antigo e detalhado de como os cristãos celebravam a Eucaristia logo após a era dos Apóstolos.
​O Texto Original: A Celebração do Domingo:

​"No dia que se chama do Sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, tanto quanto o tempo permite.
​Quando o leitor termina, o presidente faz uma alocução, exortando-nos à imitação de tão belos ensinamentos. Depois, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas orações."

​Sobre a Eucaristia (A Presença Real)
​Nesta parte, Justino deixa claro que os cristãos não viam o pão como algo comum:
​"Terminadas as orações, damos o ósculo da paz. Em seguida, leva-se ao presidente dos irmãos pão e um cálice de vinho misturado com água. O presidente os recebe e eleva louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo...
​Este alimento chama-se entre nós Eucaristia. [...] Pois não os recebemos como pão comum ou bebida comum; mas da mesma forma que Jesus Cristo, nosso Salvador, se fez carne pela Palavra de Deus... assim também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças... é a própria carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou."
​Observações Importantes do Texto:
(O Sacerdote é o Persona Chrysti)
​1. O Vinho com Água
​Justino menciona o "vinho misturado com água". Na época, era um costume cultural suavizar o vinho, mas a Igreja deu a isso um sentido teológico: a união da humanidade (água) com a divindade de Cristo (vinho).

​2. O Papel do "Presidente"
​Note que ele usa o termo "Presidente" (Proestós em grego). Ele faz isso porque está escrevendo para um imperador pagão e quer usar termos que soem como uma organização respeitável, embora na prática estivesse se referindo ao Bispo ou Presbítero.

​3. As "Memórias dos Apóstolos"
​Este é um detalhe histórico valioso. No ano 155, o Novo Testamento ainda estava sendo "formado". Quando Justino diz que se liam as "memórias", ele confirma que os Evangelhos já eram lidos com o mesmo status de autoridade que os Profetas do Antigo Testamento.
​O que aconteceu com São Justino?
​Como mencionei, Justino levou sua filosofia até as últimas consequências. No seu julgamento, o diálogo final com o prefeito romano Rústico foi registrado:
​Rústico: "Tu és cristão?"
​Justino: "Sim, sou cristão."
​Rústico: "Se fores açoitado e decapitado, acreditas que subirás ao céu?"
​Justino: "Não é que eu acredite, eu tenho certeza absoluta."
​Ele foi executado logo em seguida, demonstrando que, para ele, a Missa que descreveu não era apenas um rito, mas a fonte de sua força para morrer.

Para entender a evolução da Missa, é fascinante comparar São Justino (que vivia em Roma, ano 155) com Santo Inácio de Antioquia (que escreveu por volta do ano 107-110).
​Enquanto Justino detalha a ordem do rito, Inácio foca na autoridade e unidade em torno da Eucaristia. Juntos, eles formam a base do que hoje chamamos de Igreja Católica e Ortodoxa.

A Evolução da Estrutura:
​Santo Inácio reforça que a Eucaristia é o que mantém os cristãos unidos contra as heresias. Ele dizia que os hereges "não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo". Já Justino, algumas décadas depois, mostra que essa crença já estava organizada em uma liturgia fixa.
​Por que essas fontes são cruciais hoje?

​A Sucessão Apostólica: Eles provam que, desde o início, a Igreja não era um grupo desorganizado, mas tinha líderes claros (bispos e diáconos).
​O Realismo Sacramental: Ambos tratam o pão e o vinho como o corpo e sangue de Cristo de forma literal, não apenas simbólica.
​A Centralidade do Domingo: Confirmam que o sábado foi substituído pelo domingo logo na primeira geração de cristãos.

​O Caminho do Martírio:
​O que une esses dois homens, além da teologia, é o fim de suas vidas.
​Inácio foi devorado por leões em Roma, desejando ser "trigo de Deus, moído pelos dentes das feras para se tornar pão puro de Cristo".
​Justino foi decapitado em Roma, defendendo que a "filosofia cristã" era a única verdade plena.
​Curiosamente, a Igreja mantém os nomes de ambos (e de outros mártires dessa época) no Cânon Romano (Oração Eucarística I), que é rezado até hoje nas missas.

É impressionante como a linguagem utilizada por esses primeiros cristãos não apenas sobreviveu, mas continua sendo a "espinha dorsal" da liturgia atual. Quando você vai a uma Missa hoje, está ouvindo ecos diretos do que Justino e Inácio escreveram há quase 1.900 anos.
​Aqui estão os pontos exatos onde a influência deles aparece:

​1. O Diálogo Inicial da Oração Eucarística
​Justino menciona que o presidente "eleva louvor e glória ao Pai". Na Missa atual, o diálogo:
​Sacerdote: "Corações ao alto."
​Assembleia: "O nosso coração está em Deus."
​Sacerdote: "Demos graças ao Senhor, nosso Deus."
​Assembleia: "É nosso dever e nossa salvação."
​Este trecho é o cumprimento exato da "Eucaristia" (Ação de Graças) que Justino descreveu como o momento em que o presidente louva a Deus por ter feito o povo digno daqueles dons.

​2. O Amém da Assembleia
​Justino deu uma importância enorme ao "Amém" do povo. Ele explicava aos pagãos que o povo confirmava toda a oração do presidente com essa aclamação.
​Hoje: O momento mais solene da Missa (a Doxologia Final: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo...") termina com o Grande Amém, que é a ratificação de tudo o que foi realizado no altar.

​3. A Mistura do Vinho com a Água
​Justino mencionou o "cálice de vinho misturado com água".
​Hoje: O padre ou diácono coloca uma gota de água no vinho e reza silenciosamente: "Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade de Aquele que se dignou assumir a nossa humanidade". É a teologia da Encarnação que Justino tanto defendia.

​4. O Cânon Romano (Oração Eucarística I)
​Esta oração é a mais antiga em uso na Igreja Romana. Ela cita nominalmente os sucessores dos apóstolos e os mártires daquela época. Embora o nome de Justino e Inácio não apareçam em todas as orações eucarísticas, a Estrutura de Invocação (Epiclese) que eles defendiam — de que o Espírito Santo ou o Logos santifica o pão — permanece central.

​5. A Oração pelos Fiéis
​Justino relata que, após as leituras, eles se levantavam e faziam orações por todos os homens.
​Hoje: Após a homilia, temos a Oração da Assembleia (ou Preces), onde pedimos pela Igreja, pelos governantes (exatamente como Justino fazia pelo Imperador) e pelos necessitados.

​6. O "Remédio da Imortalidade"
​A frase de Santo Inácio de Antioquia, chamando a Eucaristia de "Pharmakon athanasias" (Remédio da imortalidade), é citada até hoje no Catecismo da Igreja Católica (§1331) e frequentemente usada em homilias para explicar que a comunhão não é um prêmio para os perfeitos, mas um auxílio para a nossa fraqueza.
​Por que isso é importante?
​Para um historiador ou um fiel, isso demonstra a continuidade. Muitas pessoas acreditam que a Missa foi uma "invenção" medieval, mas os escritos de Justino e Inácio provam que o núcleo — Palavra, Eucaristia, Presença Real e Caridade — já estava lá desde o início, nas casas-igrejas do século II.

A transição da Igreja das catacumbas para as grandes basílicas, após o Édito de Milão (313 d.C.) e o reinado de Constantino, mudou profundamente a "roupagem" da Missa, embora o "esqueleto" descrito por São Justino tenha permanecido intacto.
​Aqui estão as principais mudanças que ocorreram quando o cristianismo deixou de ser perseguido:

​1. Do Espaço Doméstico para a Basílica
​Antes de Constantino, os cristãos se reuniam em Domus Ecclesiae (Casas-Igreja). Eram ambientes íntimos e simples.
​Após Constantino: O imperador doou palácios e construiu basílicas (como a de São João de Latrão).
​Consequência: A liturgia tornou-se pública e solene. O "Presidente" de Justino agora sentava-se em uma cátedra (trono) e o altar, antes uma mesa de madeira, passou a ser de mármore e adornado.

​2. A Entrada da Pompa Imperial
​Muitos elementos que associamos hoje à liturgia solene vieram do protocolo da corte romana:
​Incenso e Velas: Na corte, eram usados para honrar o imperador quando ele entrava. A Igreja adotou isso para honrar o Evangelho e o Altar (o "Trono de Cristo").
​Vestimentas: Os ministros começaram a usar vestes distintas (a origem das casulas e alvas), baseadas na moda da aristocracia romana da época.

​3. O Desenvolvimento do Calendário e dos Ritos
​Com a paz, a Igreja pôde "expandir" o tempo litúrgico.
​As Festas: Surgiram ciclos mais definidos para o Natal e a Páscoa.
​Cânticos: O que era uma recitação simples começou a se transformar em cantos corais mais complexos.
​Idiomas: No Ocidente, a Missa passou gradualmente do grego (língua de Justino) para o latim, que era a língua oficial do povo e da administração romana.

​4. A Teologia se torna Defensiva
​Se no tempo de Justino o foco era explicar a Missa para quem estava fora (pagãos), no século IV o foco mudou para combater heresias internas (como o Arianismo).
​O Credo: Foi nesta época (Concílios de Niceia e Constantinopla) que o Credo foi formalizado e introduzido na Missa, para que todos professassem a mesma fé correta antes da Eucaristia.

​O que permaneceu igual?
​Apesar de todo o ouro, mármore e incenso das basílicas imperiais, o roteiro era rigorosamente o de São Justino:
​Leituras (Liturgia da Palavra)
​Homilia
​Ofertório (Pão e Vinho)
​Oração Eucarística (Consagração)
​Amém e Comunhão
​Uma Curiosidade: O "Segredo" que acabou
​No tempo de Justino, havia a "Disciplina do Arcano": os não batizados eram expulsos após a homilia e não podiam ver a consagração (para evitar profanações). Com a oficialização, essa prática de "segredo" foi desaparecendo aos poucos, e a Missa tornou-se o evento público mais importante da sociedade.

Essa é uma das partes mais interessantes da história da Igreja, pois houve um paradoxo: a Missa ficou mais grandiosa, mas o povo acabou ficando mais distante.
​Essa mudança de participação pode ser resumida em três pontos principais:

​1. Do "Banquete" para o "Espetáculo Sagrado"
​Na época de São Justino, a Missa acontecia em uma sala (cenáculo). Todos viam tudo e o presidente estava muito próximo da comunidade.
​Após Constantino: Com as enormes basílicas, a distância física aumentou. O altar foi colocado na abside (o fundo semicircular da igreja) e, muitas vezes, separado do povo por uma grade ou cortina chamada iconostase (no Oriente) ou cancelli (no Ocidente).
​O Efeito: O fiel deixou de se sentir um "participante direto" para se tornar um "espectador" de um mistério sagrado e terrível.

​2. A Mudança na Comunhão
​Curiosamente, quanto mais a Igreja crescia e ficava poderosa, menos as pessoas comungavam.
​Século II (Justino): Todos os presentes comungavam. Era a marca da identidade cristã.
​Século IV em diante: Surgiu um senso de "indignidade". As pessoas começaram a ter tanto medo da santidade da Eucaristia que passavam anos sem comungar, apenas assistindo ao rito.
​O gesto: Antes, recebia-se o pão na mão (como Justino descreve). Com o tempo, para evitar qualquer desrespeito ou queda de fragmentos, passou-se a distribuir a comunhão diretamente na boca e, eventualmente, de joelhos.

​3. O Surgimento do "Clericalismo" Litúrgico
​Com a oficialização, os bispos e padres ganharam status de magistrados romanos.
​Linguagem: Enquanto o latim era a língua do povo no século IV, com o passar dos séculos, o povo passou a falar línguas românicas (português, francês, etc.), mas a Missa continuou em latim.
​O Silêncio: A Oração Eucarística, que Justino descrevia como uma ação de graças ouvida por todos, passou a ser rezada em voz baixa (secreta) pelo padre. O povo já não respondia o "Amém" com a mesma força, pois muitas vezes não entendia o que estava sendo dito.
​O Legado dessa Mudança
​Muitas das reformas litúrgicas do século XX (Concílio Vaticano II) tentaram justamente voltar ao modelo de São Justino: trazer o altar para perto do povo, usar a língua local e incentivar que todos participem ativamente das respostas e da comunhão.
O Concílio Vaticano II (1962-1965) promoveu uma reforma litúrgica que foi, essencialmente, um mergulho nas fontes da Igreja Primitiva. Os teólogos e bispos da época utilizaram o relato de São Justino como o "padrão ouro" para simplificar a Missa e devolver a ela o sentido de assembleia.
​Aqui estão os resgates mais importantes:
​1. O Altar e a Proximidade
​O que mudou: Antes do Concílio, o padre celebrava de costas para o povo (ad orientem), em altares encostados na parede, herança das grandes basílicas.
​O resgate de Justino: O altar voltou a ser uma mesa central (frequentemente de madeira ou pedra simples), com o padre voltado para a assembleia (versus populum), recriando a atmosfera de "reunião de irmãos" que Justino descreveu.

​2. A Liturgia da Palavra e a Língua Vernácula
​O que mudou: A Missa deixou de ser celebrada exclusivamente em latim.
​O resgate de Justino: Justino dizia que as leituras eram feitas "tanto quanto o tempo permitia" para que todos entendessem. Ao adotar a língua local (português, por exemplo), o Vaticano II permitiu que a Palavra de Deus voltasse a ser alimento direto para o povo, e não apenas um rito misterioso em uma língua morta.

​3. A Oração dos Fiéis (Preces)
​Esta parte da Missa havia praticamente desaparecido da celebração comum, ficando restrita apenas à Sexta-Feira Santa.
​O resgate de Justino: O Concílio restaurou a "Oração Universal" logo após a homilia. É exatamente o que Justino descrevia: "levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas orações por nós mesmos e por todos os outros em todo o lugar".

​4. O Ofertório e a Procissão dos Dons
​O que mudou: O ofertório tornou-se mais visível. Em muitas paróquias, membros da assembleia levam o pão e o vinho até o altar.
​O resgate de Justino: Isso reflete o texto de 155 d.C.: "leva-se ao presidente dos irmãos pão e um cálice de vinho". Além disso, a coleta de dinheiro para os pobres foi mantida como um gesto de caridade ligado ao sacrifício, conforme Justino enfatizava.
​5. A Participação Ativa (O Amém)
​O Concílio insistiu que os fiéis não deveriam estar na Missa como "espectadores mudos".
​O resgate de Justino: Pediu-se que as aclamações (Santo, Amém, Cordeiro de Deus) fossem cantadas ou ditas por todos, devolvendo ao povo o papel de ratificar a oração do presidente, como o "Grande Amém" que Justino tanto destacava.
​Comparativo Final: A "Volta às Origens"
Essa "revolução" litúrgica foi, na verdade, uma restauração. O objetivo era que o cristão do século XX pudesse reconhecer na sua paróquia a mesma essência daquela pequena comunidade que se reunia em Roma no século II.
(A Introdução do Missal Romano a Partir de 1963 Por Papa  Paulo VI)

Embora tanto o Ocidente (Igreja Católica Romana) quanto o Oriente (Igrejas Ortodoxas e Católicas de Rito Oriental) tenham como base o relato de São Justino, eles desenvolveram estilos muito diferentes de expressar a mesma fé.
​A principal diferença é que, enquanto o Ocidente (especialmente após o Vaticano II) buscou a nobre simplicidade, o Oriente preservou e expandiu a pompa e o mistério do período bizantino.

​1. O Espaço Sagrado: Visibilidade vs. Mistério
​Ocidente: O altar é visível e próximo. O objetivo é que o fiel veja e ouça claramente o que o padre está fazendo (como nas casas-igrejas de Justino).
​Oriente: Existe o Iconostásio, uma parede coberta de ícones que separa o altar (o "Santo dos Santos") da assembleia. Grande parte da Oração Eucarística é feita de forma secreta pelo padre atrás das portas fechadas.

​2. O Pão e o Vinho
​Ocidente: Usa-se pão ázimo (sem fermento), seguindo a tradição da Páscoa judaica, e geralmente em formato de pequenas hóstias.
​Oriente: Usa-se pão fermentado (Prosphora). O fermento simboliza a Ressurreição e a vida de Cristo. O pão é cortado em cubos e colocado dentro do cálice com o vinho; a comunhão é dada com uma colher.

​3. A Mistura com Água (O Rito do Calor)
​Justino mencionou a mistura de vinho e água.
​Ocidente: Ocorre no Ofertório, com uma gota de água fria.
​Oriente: No rito bizantino, além da água no ofertório, adiciona-se água fervendo (Zeon) ao cálice pouco antes da comunhão, para simbolizar que o Sangue de Cristo é "fervente" e vivo.

​4. O Papel do Corpo e dos Sentidos
​Ocidente: A liturgia é mais cerebral e linear. O povo responde, senta, levanta e ouve.
​Oriente: A liturgia é uma experiência sensorial total. O uso de incenso é constante, as orações são quase todas cantadas e os fiéis fazem frequentes metanias (inclinações) e o sinal da cruz.
​O que os une? (O "DNA" de Justino)
​Apesar das diferenças visuais, se São Justino pudesse visitar as duas celebrações hoje, ele reconheceria em ambas:
​A Liturgia do Logos: As leituras bíblicas no início.
​A Anáfora: A grande oração de ação de graças que transforma os dons.
(Introdução do Lecionário Dominical em 1963 por Papa Paulo VI)

​A Eucaristia como Alimento: A distribuição real da comunhão como centro da reunião.
​Qual dessas tradições você acha que mais se aproxima da "sensação" de uma reunião primitiva?
​Alguns argumentam que a simplicidade da Missa moderna lembra a casa de Justino, enquanto outros dizem que o fervor e o misticismo do Oriente preservam melhor o "temor e tremor" que os mártires sentiam diante do mistério.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

14/09/2025 FESTIVIDADE DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ 24° DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C:

O QUE SIGNIFICA AS CORES DAS VELAS DO ADVENTO?!

NÃO TENHAM MEDO DE SE CASAREM UM DIA! PORQUE AS PESSOAS NÃO SE CASAM MAIS HOJE EM DIA APENAS VIVEM JUNTOS SEM O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO?!